quarta-feira, 6 de julho de 2011

UM ANO DE GRAÇA COM PADRE CAFFAREL



Para nós, o Ano de Graça de 1972 foi realmente um ano cheio das graças do Senhor, pois tivemos a oportunidade de conviver intensamente com o fundador de nosso Movimento, o Pe. Caffarel. Como já contamos na contribuição que pudemos dar ao magnífico livro de Da. Nancy Moncau sobre o histórico do Movimento1, éramos na época Casal Responsável Regional no Vale do Paraíba, Estado de São Paulo. Na ocasião, procurando fortalecer o Movimento no Brasil, a ECIR, Equipe de Coordenação Inter-Regional (que na época era responsável pelas Equipes aqui), empenhava-se em trazer novamente o Padre Caffarel, que já tinha estado aqui em 1957 e 1962. Consultado, ele informou que sua vinda para cá não seria possível em 1971 e nem 1972.

Em compensação, a Equipe Dirigente (que era então o nome da equipe responsável pelo Movimento) queria que pelo menos um casal do Brasil participasse de um Encontro de Casais Regionais que iria acontecer em Paris, em abril de 1972.

Como dissemos no testemunho a Da. Nancy “por uma feliz ‘coincidência’, orquestrada, cremos nós, pelo Espírito Santo, na mesma época Peter iria fazer uma viagem de estudos à Europa para a Cia. do Metrô de São Paulo, onde trabalhava. Como o Movimento estava numa “pendura” total, e como falamos bastante bem o francês, fomos designados para, aproveitando o fim de semana em Paris, participarmos do encontro. Em contrapartida, o Metrô não teria gastos com hospedagem, pois em Lisboa, Madri, Paris e Roma, onde a viagem de estudos ocorreria, ficaríamos em casa de casais das Equipes. E a nossa missão era de convencer o Padre Caffarel a vir ao Brasil ainda em 1972!”

A figura do Pe. Caffarel era muito especial. A Equipe que trabalhava com ele tinha um imenso respeito e ao mesmo tempo, um certo temor dele. Ele era muito centralizador: nenhuma palavra dele poderia ser publicada se não fosse revisada por ele. Suas conferências (palestras, jamais!) e suas aparições públicas eram cercadas de uma certa formalidade, que realçava ainda mais seu profundo conteúdo. (Um detalhe: ele chegava a sugerir aos demais conferencistas a cor da roupa que deveriam usar, para se destacar sobre o pano de fundo do palco.) Mas, em nenhum momento isso sequer lembrava qualquer culto da personalidade, pois tudo era feito para que o carisma do Movimento fosse preservado e nada acontecia apenas para satisfazer a vontade pessoal do padre, mas, para o bem das Equipes. Ele não se colocava à parte, distante dos outros: gostava até de pequenas brincadeiras e, como todo francês, praticava bem o trocadilho. Mas pesava cada gesto e cada palavra, pois sabia o valor e o significado que lhes seriam atribuídos.
Era esse o homem que deveríamos convencer a vir ao Brasil. No meio das palestras e dos grupos de trabalho, ficava difícil até chegar perto. Mas a oportunidade se apresentou no almoço do segundo dia do Encontro. Havíamos conversado sobre nosso intento com o casal responsável da Equipe Dirigente, Louis e Marie d’Amonville. Como resultado do conchavo, conseguimos sentar junto do Padre para almoçar. Entre brincadeiras e trocadilhos, tendo conseguido derreter o gelo, pedimos que ele consultasse sua agenda para o mês de setembro seguinte. E não é que conseguimos encaixar, com o seu beneplácito, os 15 dias de uma viagem ao Brasil?!

Pode-se imaginar a atividade frenética que isso desencadeou no Brasil quando, na nossa volta, colocamos a ECIR a par. O tempo era curto, apenas quatro meses, para tudo preparar. Houve alguns episódios curiosos, entre os quais um que nos afetou diretamente. Foi contratado um tradutor especialmente para as Sessões de Formação. Trabalhamos com ele para lhe passar o nosso jargão das Equipes: o que é um dever de sentar-se, uma partilha, uma regra de vida etc. E, como se diz, tudo isso em francês. O pessoal de São José dos Campos tinha fabricado um aparelho transmissor para a tradução simultânea, denominado “Enguiço 1” (havia também um de reserva chamado “Enguiço 2”). Na véspera do início da Sessão de Itaici, íamos testar tudo, quando o tradutor contratado pediu licença para ir ao banheiro... e nunca mais voltou! Parece que ficou assustado com tudo isso. Mas aí, quem iria fazer a tradução? Após alguns testes, a escolha caiu sobre Peter que, em função disso, fez a tradução simultânea das 14 palestras que Pe. Caffarel deu nas Sessões de Formação. Ao que parece, apesar de pequenos contratempos, o Padre gostou, porque passou a nos enviar cartões nos Natais dos anos seguintes, dirigidos ao seu “fiel tradutor”.

Por duas vezes, ao ouvir as traduções, os cem casais presentes deram risadas que o Padre não entendeu, pois não tinha falado nada de engraçado. Uma vez, ele começou a contar a história de “petit François”, que Peter traduziu por “Chiquinho”... A outra, foi quando Peter levou um choque do “Enguiço 1” e soltou um palavrão.

Hélène também ajudou muito nas traduções, pois acompanhou o Padre no Grupos de Trabalho e, quando ele quis saber mais sobre a Renovação Carismática, então em seus primórdios no Brasil, ela foi intérprete na conversa com o Padre Haroldo Rahm, que veio até Itaici para vê-lo.

Em nenhum momento, durante as refeições, durante os tempos livres das Sessões, durante as viagens entre São Paulo, Itaici, Florianópolis, Taboão da Serra, Rio de Janeiro, Pe. Caffarel quis se prevalecer de sua condição de fundador e dirigente do Movimento. Entrava nas filas dos bandejões das refeições e em tudo manifestava uma grande simplicidade. Com quase 70 anos na ocasião, nunca se queixou de cansaço ou de qualquer mal estar. Cremos que gostou de estar um pouco mais livre das formalidades, aqui no Brasil. Na verdade, por trás das aparências de severidade e grande seriedade, estava um homem de coração simples, “arrebatado por Deus” – como diz Jean Allemand no título do livro que escreveu sobre ele2 – um homem de grande fé, que entregava na mão de Deus esse fruto de sua vida que são as Equipes de Nossa Senhora.



Hélène e Peter

Equipe 3D - N. Sra. do Desterro

São Paulo – Capital



Nancy Cajado Moncau, “Equipes de Nossa Senhora no Brasil, Ensaio sobre seu histórico”. Ed. Nova Bandeira/ENS, São Paulo, 2000, página 153.

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